Sexta-feira, 20 de Julho de 2007

lembro-me



Lembro-me das tuas angústias nocturnas

Lembro-me que eram minhas também

Lembro-me dos telefonemas às três da manhã

Lembro-me daquela porta fechada naquela madrugada gelada

Lembro-me de não teres acreditado em mim

Lembro-me sim : inflexível, inamovível, surda, gelada como a rua

Lembro-me de oito quilómetros a pé, de volta a casa

Lembro-me de chorar todo o caminho

Lembro-me de ir olhando para o telemóvel – incrédulo por não tocar

Lembro-me da raiva por te ter implorado, suplicado

Lembro-me de me sentir uma merda, um miserável – gelado

Lembro-me de ter sido menos que um pequeno homem

Lembro-me de me pedires desculpa no dia seguinte

Lembro-me de pensar para comigo:

Não peças desculpa, pede-me perdão!

Lembro-me de amolecer com as tuas lágrimas

Lembro-me dessa paixão

Queres saber de mais coisas que me lembro?!

 

Lembro-me da revolta e raiva pelo teu ex marido

Lembro-me das coisas que te fez – de toda a ignomínia

Lembro-me das feridas na tua alma em carne viva

Lembro-me de te cobrir de beijos – pedindo que sarasses

Lembro-me de ser homem onde ele não o foi

Lembro-me de te pôr nas mãos, algo meu que nunca lhe viste a ele

Lembro-me de ter sido eu, castigado pelos crimes dele

Lembro-me de ter sido eu, a presa que nunca tiveste coragem de fazer dele

Lembro-me de quem ficou, quando tantos te viraram as costas

Lembro-me de acordar com os teus sonhos chorados

Lembro-me de chamar anjos que te ajudassem nesse sítio negro

Lembro-me de combater o sono para te acariciar o cabelo

 

Lembro-me da dor lancinante quando me pediste um filho

Lembro-me de muita coisa que magistralmente sabias fingir

Lembro-me do horror de ter percebido isso

Lembro-me do horror em perceber que eras fingida, manipuladora, doente


Lembro-me que não vale a pena relembrar-te nada disto

Lembro-me de ter sido o homem mais rebaixado e sem respeito por si mesmo

Lembro-me de ter vergonha asquerosa de mim próprio

Lembro-me de não me reconhecer no espelho

 

Lembro-me com felicidade do dia em que disse “basta”

Lembro-me de virar as costas a dois anos de vida perdida

Lembro-me ainda assim, de chorar o amor que desperdiçara a dar

Mas lembro-me – contudo - do alívio que tomou conta de mim

Que me lembrou estar aquele amor há muito moribundo, em sentido único

Que me lembrou que se podem matar fantasmas

 

Lembro-me principalmente, que tudo isto acabou

Lembro-me que te sobrevivi

 

Se eu nunca fingi amor para conseguir sexo… perguntas tu?

Gostava que pudesses ouvir a minha gargalhada

Gostava que ouvisses o seu som de desprezo

Acredita em mim :  tu estás morta!

 

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